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Uma fazenda típica em Rio Verde dos anos quarenta

5 de agosto/2020, em memória aos 172 anos do surgimento de Rio Verde, Goiás

Colaboração: Antônio Arantes

A cem anos após o surgimento de Rio Verde, a sua história ainda se arrastava lentamente sob o domínio do “Ciclo do gado bovino”. A fazenda Boa Vista, a duas “léguas” da cidade, implantada por um dos povoadores da região, Olímpio do Carmo Arantes, sobrevivente da “Caravana dos Arantes”, procedente de Aiuruoca e Prata, MG, chegando a Rio Verde, casou-se com Jovília Caetano de Souza.
Um de seus filhos, Agenor do Carmo Arantes, casado com Rosita Carolina Ferreira Arantes. Casal determinado e acostumado a “labuta” no campo.
Naqueles primórdios do século XX, a vida na região era muito diferente a de hoje, vivenciá-la, seria uma viagem de memória, aqueles tempos distantes e diferentes, sofridos, lentos e muito devagar!
O dia a dia daquela gente brava, criativa, forte e destemida que enfrentava e encarava a vida com muita coragem e fé. As distâncias eram percorridas a pé, “no lombo do cavalo”, no carro-de-boi e, mais tarde, chegaram “algumas máquinas” que enfrentavam as “estradas carreiras” precárias, abertas a machado e enxada; o avião Teco-teco era peça de curiosidade.
Apesar do isolamento geográfico, eles viviam uma vida intensamente divertida em suas comunidades, haviam muitas festas nas fazendas, com bailes, com as danças Chasquenta, Catira, “mutirões”, “ajuntamentos”, “treições”, casamentos, terços, novenas, leilões, batizados nas fogueiras de São João, Santo Antônio e São Pedro. Nas grandes festas da cidade comemoravam o dia do Santo Padroeiro e lá iam a cavalo, a pé e carro-de-boi. Nos animados leilões, a Banda de Música tocava um refrão ao anunciar o remate de cada Ceia oferecida ao santo, que “um graúdo” da cidade arrematava, a “Ceia” constava de frangos cheios, carne de porco e arroz assados, garrafa de vinho, doces e muitas delícias da culinária da região. Onde eram Batizadas e Crismadas as crianças, outros se casavam no religioso. Longas procissões percorriam as principais ruas da cidade com coloridos estandartes de santos e velas acesas, as crianças se vestiam de anjo, de santo, os homens de terno a rigor ou conduziam os Colares de suas Irmandades, acompanhados das Filhas de Maria e rezadeiras.
A vida na roça era muito penosa e sofrida, as relações sociais se davam entre famílias, vizinhos, de compadre a compadre, de prolongadas visitas. Tudo era feito a mão, no machado, na enxada, no facão, no serrote, no martelo. Pouco se compravam “no comércio da rua”, salve o arame, o sal, as ferramentas, alguns tecidos mais finos, as roupas mais grossas eram feitas de algodão branco e “ganga” na Roda-de-fiar e no Tear da fazenda; o açúcar, o café eram produzidos ali mesmo, todos os produtos da terra eram aproveitados, o leite, o couro, a madeira para construção. “O trabalho era de sol a sol”, de segunda a segunda, descanso mesmo, só na Sexta-feira Santa, no dia do santo padroeiro e do santo devoto, guardados com muito respeito e fé.
O estudo inicial na Escola Rural, ainda movido a castigo com uso da “Palmatória” era só para ler, escrever e fazer as quatro operações para os homens; às mulheres bastavam saber ler, assinar o nome e saber os “afazeres de casa”, costurar, bordar e tudo da cozinha. Pouco se comprava e pouco se vendia, a troca era a moeda. Vender pra quem? Se todos produziam e consumiam ali mesmo, nada era exportado para fora da região, na safra até jogavam o mantimento velho fora para guardar o novo na “tuia” ou no “paiol”. O gado era bem vendável e onde se fazia dinheiro, com a venda dos bezerros no mês de maio, quando se faziam compras “na rua”, da botina aos arreios e algumas “traias” para o consumo da fazenda. A saúde era tratada à garrafada, à reza, “à benzição”, “à simpatia”, a farmácia “receitava e aviava os remédios ali manipulados” e dificilmente iam ao médico. Não existiam rádio, jornal, televisão, internet, telefone e as notícias quando chegavam lá pra aquelas bandas eram de boca em boca e muito distorcidas e confusas e despertavam pouco interesse, salve a passagem dos “Revoltosos” na região, a chegada do avião, do automóvel que trouxeram muita curiosidade e motivos de conversa nos vizinhos e rodas de amigos. A vida começava e terminava por lá mesmo! A riqueza se media no tamanho das terras e gado bovino que possuíam, um revólver “Shimit” de Cabo de Pérola na cintura, uma mula bem arreada e “adestrada”.
A Justiça tinha pouca força, os crimes eram quase inexistentes, em face à proximidade e amizade, e consideração entre os Compadres, mas as contendas eram resolvidas à lei da bala, “ficar de mal” e a vingança era o código de ética da época.
Foi neste contexto, neste distante mundo selvagem e civilizado que as vizinhas famílias de compadres, comadres “Carmo Arantes” e “Ferreira Gonçalves”, através da convivência da vizinhança casaram seus filhos Agenor do Carmo Arantes e Rosita Carolina Ferreira Arantes, que constituíram uma família, no pé do engenho-de-cana, que os tiravam da cama às duas horas da madrugada “branca de geada”, ou levantavam às quatro horas da madrugada, no relógio da estrela ou no cantar do galo, debaixo de chuva para tirar o leite “no curral de lama até a canela” e desnatá-lo, ou no cabo da enxada ou “no cabo da mansinha”, do machado ou na beira do tacho, do fogão, ou apanhar laranja e mexerica para vender na cidade, tudo isso para comprar um pedaço de terra, uma rês de gado e criar os cinco filhos, até letrados, de formação moral e espiritual: Lázaro (Agrimensor, Advogado, Jornalista), Geraldo (Agro-pecuarista), Sebastião (Advogado, Escritor), Antônio (Advogado, Escritor), Pedro (Economista, Professor).
São imagináveis o que este casal “de pouca leitura” construiu ao longo da vida, com trabalho, luta, dedicação, amor, honestidade, fruto de uma época, que visualizou e condicionou o futuro de seus filhos, netos e gerações vindouras, a uma vida melhor e menos sofrida. É assim que, ao olharmos para trás e voltar no tempo, vemos Agenor e Rosita dentro de seu contexto histórico: Apesar dos erros e acertos, VOCÊS SÃO INESQUECÍVEIS PARA NÓS, HOJE E SEMPRE…!

Homenagem aos 172 anos da Emancipação da Cidade de Rio Verde, Goiás.
Texto retirado do livro, “Memorial III – Rio Verde e suas personalidades”, redigido por Antônio Arantes e publicado pela Arlao, Academia Rio-verdense de Letras, Artes e Ofícios. Da qual Antônio F. Arantes ocupa a Cadeira 18, e tem como Patrono Visconde de Taunay.

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