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CRÔNICA DO REPÚDIO

Poetisa Ana Luiza de Lima Guimarães. Desnudamento: um jeito amoroso de interpretar o mundo. 

Drogas: um duelo à miserabilidade humana, envergadura silente que ceifa as vidas, engrenagem voraz ao colapso social, campo minado às desilusões, Hera com vestiduras de sedução, bote da serpente. 

A droga é um labirinto, cubículo sem norte, que escraviza o homem e o condena ao submundo, ao degredo, à fama efêmera, ao espetáculo de holofotes apagados, prato de cinzas, relâmpago ao declínio, raio ao abismo sem itinerário. 

A droga é fogo no bombril, pólvora, barril, bolsa de valores sem reserva, investimento falido, maratona fatigante, sonâmbula arbitragem à fugacidade dos dias, trilha sem endereço, nem identidade. 

A droga é uma cratera, esfera ao perigo, atadura mental, lâmina que corporiza a morte, silenciosa pérola que fragiliza o gigante e faz prevalecer a pantera sistêmica, felina, selvagem, apagando multidões. 

A droga é um absinto, veneno que entorpece o arbítrio, cauteriza as emoções, aniquila os passos, interrompe compassos, antecipa dor, alcova bacanal de alucinações. 

A droga é um confronto de paradoxos, onde traficantes e usuários travam batalha sangrenta em arenas medievais, picadeiro público, de espelhos cortantes, picantes penhascos. 

A droga é chaga de choro, ilícita angústia às mães, cofre milionário bailando às soltas a teia do crime, regime sem dono, entalhe sem amparo, inscrição sem rasto, mutilação, torpeza, musa sem rosto. 

A droga é pirulito ao projétil, estopim às brigas e contendas, conspiração de engano, vicitude ao falho, parada obrigatória à mortalha precoce, fluxo residual dos marginalizados, afago sem afeto dos abandonados, adrenalina minuta, tirolesa, rentabilidade inescrupulosa dos espertalhões. 

A droga é o tato ao tiro, gatilho sem pistas, condução vadia que tremula a madrugada, alvorada triste, escopeta tinindo, vidas sumindo, um troféu absurdo! 

A droga é sinfonia vazia, ilusão do dinheiro fácil, carregando a nódoa de rendas, fendas e feridas, andorinha sem aplauso, ciranda sem ninar, um remar otário e solitário de íngremes descaminhos. 

A droga é o escombro do tecido social, muda indiferença, resposta à incomunicabilidade, busca da felicidade, um voo franzino querendo potência, carência de braço ao menino renegado, de destino manchado, marcado, exposto ao oportunismo de esporas do glamour do capital. 

A droga é a esfinge das diferenças, o ronco da fome, o estado paralelo abrindo esgotos de sangue, engodo sem volta, valetas nos guetos, esqueletos, clandestinidade, defunto, necrotério, cemitério, coação às favelas e celas. 

A não droga é questão de afeto, teto, trajeto possível, recuperação do elo perdido: das famílias, do sujeito, pelo laço do abraço e do diálogo. É preciso quebrar os estigmas, resgatar o pertencimento da vida, tão frágil como uma bolha entre lâminas e migalhas. 

É hora de prevalecer à soberania da escuta, sem esmorecer no combate. Se a esquina é parque para a perversão, diversão sadia ainda pode existir, seja sentinela na observação, sele o filho de amor, um laço invisível. 

Pouco adiantarão muros, cães de guarda, cercas elétricas, cadeados, se o menino inocente continuar largado. Facilite a instrução, a educação, e a trilha do erro não draga o cidadão. Livre é quem doma as emoções, enverniza a alma, segue seu curso num percurso ético entre aprendizagens e experiências. 

Construa limite, amparo, assistência, construto sem atalho que evita a navalha, alimente o fôlego no gozo do espírito e então a droga não será mais atrativa. 

A rejeição dissemina a fuga. É preciso acolher, convencer com estratégias, trazer os sujeitos ao convívio da benevolência e a droga cairá no esquecimento, no ridículo, no fiasco, no vexame. 

A miserabilidade é retrocesso antropológico. É preciso cessar a guerrilha, sem vítimas e vitimados, num pacto de paz e solidariedade, serenata e sonata que embala o sono, o sossego e o sonho. 

É preciso programar políticas públicas reparativas, instrutivas, afirmativas, preventivas, repressivas. Uma Nação que se dê a mão e desperte do adormecimento, da indiferença. Um Estado que assegure sustentabilidades e garantias ao cidadão, que multiplique o respeito, os valores, a segurança, a qualidade de vida, a materialidade de ações concretas que coíbam o excesso e a falta, desmascarando o cinismo e a hipocrisia. 

Não há humanidade onde há abandono, feito um cão sem dono, “meninos olhudos” cheiram cola, sem escola. São como mendigos, insetos vagantes, extravagantes, imperceptíveis, insignificantes, rótulos loucos da era de bronze, insípidos “fantasmas” bordando a avenida. 

Ali há mais que um corpo, uma história atravessada pelo desnudamento, guardada no cofre do nada, dormindo ao relento, rebento das circunstâncias. 

É preciso (re)significar a vida, travar o duelo da dignidade, fortalecer a amizade, desabrochar singularidade, recuperar traços humanos, para além das cicatrizes, rever meninos felizes, o mundo é um campo belo de virtudes! 

Não é preciso cadeia e nem corrente para o homem livre. Lapidar consciência é o jeito mais fácil e barato de edificar gerações. Cessem as contradições! Melhore a empregabilidade! Fora as corrupções e cresça a soberania da vida. 

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