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Leitura nos presídios pode reduzir pena de detentos

A Fundação Municipal de Cultura de Rio Verde, através do seu presidente Isaac Pires implantou, de forma inédita no CIS (Centro de Inserção Social) de Rio Verde, um projeto de leitura que pode ajudar os presidiários na redução de suas penas.

A cada noventa e seis páginas lidas o detento ganha um dia de remissão, mas ele deve ler um livro completo, se o livro tem mil páginas, ele ganha sobre essas páginas, desde que tenha feito a leitura completa da obra. A partir da leitura o preso deve fazer uma resenha que será avaliada pelo Conselho Municipal de Cultura sob supervisão da Fundação Municipal de Cultura. Essa resenha, depois de lida e avaliada volta para o presídio para supervisão do diretor ou diretora e depois é encaminhada para o juiz, quando este concederá a redução na pena conforme sua avaliação.

Para o presidente da Fundação Municipal de Cultura o projeto é inovador e pode ajudar muitos detentos, porém, pode acontecer casos, mesmo que esporádicos, de leituras e resenhas que não são aceitas ou aprovadas pelo Conselho, mas a maioria está fazendo de forma correta as leituras. “Só este mês foram 65 reeducandos que leram e alguns leram mais de mil páginas. Isto é relativo, mas em torno de 26% dos presidiários estão lendo e isso é muito importante, tanto é que recentemente o governo do estado, através da SEDUCE (Secretaria de Educação do Estado) fez também este projeto junto com o Ministério Público para remissão de pena. Eu acredito que aqui foi o espelho para o estado, porque aqui está dando certo ”, explicou Isaac.

O projeto, segundo Isaac Pires, surgiu desde que ele foi convidado pelo prefeito Paulo do Vale a assumir a pasta da Cultura. Na ocasião Isaac entregou ao prefeito a ideia de 15 projetos a serem implantados pela FMC, sendo que destes doze estão funcionando e outros estão sendo criados. Assim que foi aprovado pelo prefeito, o projeto, na sua forma original, foi redigido pelo saudoso Dr. Benjamim Spadone, inclusive com a sugestão de realização de uma banca para ouvir os presidiários. O projeto teve alguns avanços como o acesso aos analfabetos, entre outros casos especiais.

Todos os membros do Conselho Municipal de Cultura são responsáveis pela leitura das resenhas, porém ficou a cargo do cantor Roni Cardoso e do escritor Filadelfo Borges, a leitura minuciosa de cada uma. Cada detento tem a liberdade de tempo para fazer a leitura e a resenha, sendo que todo mês o presidente Isaac e o cantor Roni Cardoso vão até o presídio para recolher as resenhas prontas e entregar à diretora, ou ao responsável pelo projeto no CIS, que no caso é um dos detentos, as resenhas lidas e analisadas pelo Conselho de Cultura.

O presidente Isaac disse que além deste e de tantos projetos realizados pela Fundação de Cultura é sua intenção, assim como foi realizado este ano com os alunos do ensino fundamental, em parceria com Academia Rio-Verdense de Letras, Artes e Ofícios, a publicação, em 2020, de um livro de poesias, contos ou crônicas, escrito pelos detentos, isso depois de eles terem lido mais e de verificarem os textos produzidos por cada um.  Segundo o presidente há alguns detentos que escrevem muito bem e ótimos textos poderão ser selecionados. No entanto, esta é uma ideia que ainda está sendo amadurecida.

O projeto, segundo o presidente, é inovador e em Rio Verde é destaque porque o número de leitores no país caiu muito e em contrapartida, no CIS aumentou de forma surpreendente. “Aqui é um exemplo porque o número de leitores no país caiu e muitas livrarias fecharam por falta de investimentos e aqui mostra que as pessoas leem e gostam do projeto, o que falta é incentivo”, afirmou o presidente.

A diretora do presídio, Andreia Ferreira Costa é uma das apoiadoras do projeto e também o considera importante no processo de reeducação dos detentos. “Considero esse projeto muito importante porque vem inserir os excluídos no contato com a cultura. Os livros trazem esperança, trazem menos ociosidade e está auxiliando na vida dos detentos, pois estão se sentindo mais importantes. Entre trezentos e vinte e seis detentos, cerca de oitenta estão fazendo a leitura e quando os livros não chegam até eles, eles pedem, além de não ter nenhum custo, já que os livros são oferecidos gratuitamente, em forma de empréstimo”, explicou a diretora.

Para os detentos a leitura, além de ajudar na redução da pena está contribuindo para sua mudança pessoal. “Sempre que eles passam oferecendo os livros eu gosto de pegar cinco de uma só vez, isso para eu poder fazer a remissão dos meus dias aqui. Eu tenho muita cadeia ainda pra puxar e preciso da redução. Eu gosto de ler e leio todos os estilos. Acho que desde que começou o projeto eu já li mais de vinte livros. Eu leio e faço os resumos, gosto mais dos de autoajuda, de história e livros religiosos. Li sobre ansiedade e me ajudou muito porque sou muito ansiosa, os livros ensinam muito e tem me ajudado no meu autocontrole”, diz C.F.M de 37 anos cuja pena a ser cumprida é de 17 anos em regime fechado.

“Cumpro pena há um ano e três meses e minha função nesse projeto é receber os livros, catalogá-los, cuidar da biblioteca e entregá-los aos presos. Entrego no início e recolho no final de cada mês, juntamente com as resenhas que são entregues ao Isaac para a validação. Conforme a avaliação, recebo as resenhas e informo os detentos sobre os dias de remissão de sua pena, isso para incentivá-los. Esse projeto veio para melhorar nossa vida aqui dentro, tirar o tempo ocioso de todos nós e nos ajudar para que ao siarmos daqui sejamos pessoas melhores. Não precisamos que ninguém venha aqui para nos julgar, isso já foi feito, o que precisamos é de pessoas para nos ajudar a melhorar como seres humanos e isso esse projeto está fazendo através da Fundação Municipal de Cultura, na pessoa do Sr. Isaac Pires. Pra mim, depois do projeto melhorou três vezes mais, uma porque tenho um trabalho a fazer aqui, outra porque me incentiva a leitura, pois sempre gostei de ler e também por poder reduzir a minha pena”, disse D.J, 33 anos e responsável pelo projeto no CIS.

A biblioteca do presídio, que começou com setecentos livros, hoje já conta com mil e duzentas obras em diversos estilos, desde auto ajuda a romances, livros religiosos, de história, épicos, entre outros. A preferência dos detentos é pelos livros de autoajuda e literatura.

A ajuda da sociedade tem sido muito importante e muitas pessoas doam livros para a biblioteca Municipal de Rio Verde. Segundo o presidente Isaac o número de livros, só na sua gestão cresceu cerca de 50%, sendo que foram criadas duas bibliotecas na zona rural; uma para adolescentes infratores; o projeto Livro no Banco da Praça, quando são deixados 30 livros por semana em praças nos diversos bairros da cidade; o projeto Teatro Educa que sorteia dez livros por semana e o Matinê da Melhor Idade quando são sorteados 10 livros semanais. Segundo o presidente, quanto mais livros a FMC doa, mais recebe e um dos parceiros importantes nesses projetos tem sido a Editora Kelps que doou os primeiros seiscentos livros para o CIS. A prefeitura de Rio Verde também tem apoiado esses projetos cujo objetivo principal é incentivar a leitura, pois segundo o escritor Mário Quintana, “os livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros mudam as pessoas”.

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